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Adolescência: muito além dos hormônios

  • Foto do escritor: carolinasoraggipsi
    carolinasoraggipsi
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura

Um processo de transformações, descobertas e construção de identidade


Quando pensamos na adolescência, muitas imagens vêm à mente: mudanças de humor, conflitos familiares, amizades intensas, primeiras paixões, questionamentos sobre o futuro e uma busca quase incessante por pertencimento. Não é raro ouvirmos expressões como "essa fase é difícil” e "na minha época era diferente", como se a adolescência fosse apenas uma fase problemática que precisa ser suportada até a vida adulta.

Mas essa visão está longe de representar a complexidade desse período.

A adolescência é uma etapa marcada por profundas transformações biológicas, psicológicas e sociais. É um momento em que o organismo passa por uma intensa reorganização, as relações ganham novos significados e a identidade começa a ser construída de forma mais consciente. Trata-se de um período de enorme potencial para aprender, criar, experimentar e desenvolver autonomia.

Compreender essas mudanças é um dos primeiros passos para construir relações mais saudáveis com os adolescentes.


Afinal, o que é a adolescência?


A Organização Mundial da Saúde considera adolescência o período compreendido entre os 10 e os 19 anos de idade. Entretanto, ela não pode ser entendida apenas como uma faixa etária ou como o conjunto das mudanças provocadas pela puberdade.

Embora as alterações hormonais marquem o início dessa fase, a adolescência também é uma construção social e cultural. Cada sociedade estabelece diferentes expectativas sobre quando alguém deixa de ser criança, quais responsabilidades assume e quais oportunidades terá para experimentar, estudar, trabalhar ou construir sua autonomia.

Por isso, não existe uma única adolescência. Existem adolescências plurais.

As experiências vividas por um adolescente variam conforme a relação com seu corpo e funcionamento neurobiológico, seu contexto familiar, sua condição socioeconômica, seu território, seu gênero, sua raça, sua cultura, sua religião e tantas outras dimensões que atravessam o desenvolvimento humano.

Apesar das conversas sobre adolescência concentrarem-se nos riscos, a plasticidade cerebral favorece novas aprendizagens, criatividade, desenvolvimento de habilidades sociais, construção de valores e formação da identidade. É durante essa fase que muitos jovens descobrem interesses profissionais, causas sociais, talentos artísticos, posicionamentos e formas próprias de compreender o mundo.

A curiosidade, a capacidade de inovação e a disposição para experimentar novas possibilidades fazem da adolescência um período extremamente fértil para o desenvolvimento humano.


Um cérebro em plena construção


Na adolescência ocorre uma intensa reorganização cerebral, caracterizada pelo desenvolvimento do córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelas funções executivas, controle inibitório, regulação emocional, comportamento e personalidade.

Algumas conexões entre neurônios são fortalecidas enquanto outras deixam de existir, tornando o funcionamento do cérebro mais eficiente. Acontece ainda um aumento da mielinização, processo que acelera a transmissão das informações entre diferentes regiões cerebrais.

Isso permite um avanço importante na capacidade de raciocinar de forma abstrata, planejar, considerar diferentes perspectivas e pensar sobre o futuro. No entanto, esse amadurecimento não acontece de maneira uniforme.

As regiões relacionadas às emoções, à motivação e à busca por recompensas imediatas tornam-se altamente ativas até que o córtex pré-frontal complete seu desenvolvimento. O que ajuda a explicar por que muitos adolescentes sabem qual seria a melhor decisão a tomar, mas, diante de situações emocionalmente intensas ou socialmente relevantes, acabam agindo impulsivamente.


Por que os amigos se tornam tão importantes nessa fase?


Se existe uma característica marcante da adolescência, é a importância crescente das relações com os pares. A opinião dos amigos passa a ter um peso enorme nas decisões, na autoestima e até mesmo na forma como o adolescente percebe a si próprio.

Estudos mostram que na presença dos seus pares, adolescentes apresentam maior propensão aos comportamentos de riscos, quando comparado à infância e à vida adulta. Isso ocorre porque na adolescência a aceitação social ativa importantes circuitos cerebrais relacionados à recompensa. E, além disso, socialmente e culturalmente ser aceito em um grupo significa pertencimento e identidade, o que contribui para a auto estima.

É justamente entre os pares que muitos adolescentes experimentam novas formas de pensar, vestir-se, relacionar-se e descobrir quem desejam ser. Por isso, embora as amizades despertem preocupação nas famílias, elas também representam um espaço fundamental para o desenvolvimento social.

O papel dos adultos não é impedir essas relações, mas acompanhar, orientar e ajudar o adolescente a construir vínculos saudáveis.


Adolescências vividas de diversas maneiras


Embora existam aspectos comuns do desenvolvimento, as oportunidades e os desafios não são iguais para todos. Enquanto alguns adolescentes podem dedicar grande parte do tempo aos estudos, ao lazer e às descobertas afetivas, outros precisam ingressar precocemente no mercado de trabalho, assumir responsabilidades familiares ou enfrentar diferentes formas de violência e exclusão.

Questões relacionadas ao racismo, às desigualdades sociais, às violências de gênero, às discriminações contra pessoas LGBTQIAPN+, ao capacitismo e às condições de acesso à educação e à saúde, influenciam profundamente a forma como cada adolescente vivencia essa etapa da vida.

Falar em adolescência, portanto, exige reconhecer que existem múltiplas adolescências e o acompanhamento de suas necessidades deve ser individualizado e contextualizado.


Muitas mãos entrelaçadas com as palmas viradas para cima, compostas por diversas cores de pele.

A neurodiversidade na adolescencia


Os processos supracitados da adolescência também acontecem entre adolescentes neurodiversos, como aqueles no Transtorno do Espectro Autista (TEA), com TDAH, dislexia, altas habilidades/superdotação ou outras formas de funcionamento neurocognitivo. Entretanto, essas mudanças podem assumir características particulares.

Enquanto todos os adolescentes estão construindo sua identidade e buscando maior autonomia, os adolescentes neurodiversos frequentemente precisam lidar, ao mesmo tempo, com desafios relacionados à comunicação, à regulação emocional, ao processamento sensorial, às funções executivas ou às interações sociais.

Assim, caso o adolescente neurodivergente seja exposto a experiências repetidas de exclusão, bullying, incompreensão, ou outras formas de opressão e violências, esse período de desenvolvimento será ainda mais difícil de atravessar.

Por isso, é fundamental evitar interpretações simplistas de seus comportamentos. O que pode parecer "desinteresse", "rigidez" ou "falta de esforço", poderá ser uma consequência da interação entre seu funcionamento neurocognitivo e o ambiente em que está inserido, como o contexto familiar, educacional e outros.  

Mais do que adaptar o adolescente ao mundo, precisamos construir ambientes mais acessíveis, acolhedores e inclusivos!


Quando os comportamentos desafiadores merecem atenção?


Oscilações de humor, maior necessidade de privacidade, questionamentos, conflitos familiares e busca por autonomia são esperados. Entretanto, alguns sinais indicam que o adolescente pode estar vivenciando um sofrimento que merece avaliação profissional.

Entre eles estão:


  • isolamento persistente;

  • mudanças intensas e duradouras de humor;

  • perda significativa de interesse por atividades antes prazerosas;

  • automutilação;

  • pensamentos relacionados à morte;

  • uso abusivo de álcool e outras drogas;

  • alterações importantes do sono e da alimentação;

  • sinais de ansiedade;

  • prejuízos no desempenho escolar.


Buscar ajuda demonstra cuidado e compromisso com o desenvolvimento do adolescente!


O papel da família: entre a autonomia e o pertencimento


Um dos maiores desafios da adolescência é equilibrar dois movimentos que acontecem simultaneamente. Ao mesmo tempo em que a adolescente precisa se diferenciar da família para construir sua própria identidade, continua precisando do seu suporte, acolhimento, direcionamento e pertencimento.

Isso significa que discutir, discordar e buscar mais independência não representam, necessariamente, rejeição aos pais ou cuidadores. Na maioria das vezes, fazem parte do processo de tornar-se quem se é. Cabe à família oferecer um ambiente seguro para que o adolescente possa explorar o mundo sabendo que existe um lugar para retornar:


  • Escutar mais do que julgar.

  • Negociar mais do que controlar.

  • Manter limites consistentes sem perder o vínculo afetivo.

  • Esse equilíbrio favorece não apenas o desenvolvimento emocional do adolescente, mas fortalece toda a dinâmica familiar.


Mais do que passar pela adolescência, precisamos valorizá-la!


Durante muito tempo, a adolescência foi tratada como um problema a ser corrigido ou uma fase que precisava passar rapidamente. Hoje sabemos que ela representa uma das etapas mais ricas do desenvolvimento humano.

É nesse período que sonhos ganham forma, valores são construídos, identidades se consolidam e projetos de vida começam a surgir. Cada adolescente carrega uma história única, potencialidades próprias e diferentes formas de compreender o mundo.

Talvez o maior desafio para nós, adultos, seja abandonar a expectativa de que eles se comportem como adultos antes do tempo e passar a enxergá-los como sujeitos do presente — pessoas que já têm voz, direitos, capacidades e necessidades próprias.

Quando oferecemos relações baseadas em respeito, escuta, pertencimento e segurança, criamos condições para que cada adolescente atravesse essa fase não apenas enfrentando desafios, mas descobrindo suas próprias possibilidades de existir.



Referências


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